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Raciocinando o Aborto Imprimir E-mail
Escrito por Cans Reis   
19-Set-2008

ImageDevido a algumas discussões sobre o aborto no fórum do site, eu resolvi escrever um texto sobre a minha opinião sobre esse assunto, apresentando a vocês uma visão particular e racional, obviamente sem deixar de lado minha ética pessoal (pagã).

Primeiro vamos às definições. Para começar, o que é aborto? Segundo o dicionário Houaiss: Um aborto ou interrupção da gravidez é a remoção ou expulsão prematura de um embrião ou feto do útero, resultando na sua morte ou sendo por esta causada.

Agora, vamos pensar um pouco na definição de uma segunda palavra, dessa vez um pouco mais complicada: VIDA. O que é vida? O grande problema que vemos nas discussões sobre o aborto é o direito à vida. Mas você sinceramente já parou para refletir sobre o que é vida? Com certeza essa é uma questão filosófica que englobaria uma discussão de diversas áreas científico-religiosas e creio eu, ainda não chegaríamos num acordo. Então, pensemos de uma forma mais específica sobre o nosso assunto, reformulando a questão: Quando se inicia a vida?

Segundo o catolicismo (cultura cristã de maior influência sobre o mundo ocidental) a vida se inicia na concepção, ou seja, no momento em que o espermatozóide fecunda o óvulo (na verdade ele fecunda o ovócito II, mas isso é outra discussão). As religiões pagãs não possuem, devido a sua própria estrutura e diversidade, uma única definição para esse tema. Por fim, saindo um pouco da área dogmática das religiões, o que a ciência, ou melhor, os cientistas pregam?

Na ciência, existem quatro grandes grupos que merecem destaque: aqueles que defendem que o início da vida se dá na concepção (destaque para o grande número de cristãos que defendem essa tese); há também aqueles que acreditam que a vida só se inicia na implantação do embrião no útero (dentre esses os principais defensores da “pílula do dia seguinte”, que impede que a célula ovo se implante no útero); há os que afirmam que vida se inicia após o parto (geralmente grandes defensores do aborto) e por último os que defendem que a vida se inicia na formação do sistema nervoso (grupo do qual faço parte).

Quero deixar claro que essa minha visão se justifica pelo fato de que, biologicamente, uma pessoa não pode “sentir” nada sem a presença do sistema nervoso. Por isso, como a minha definição de “vida humana” engloba a capacidade de possuir sentimentos, essa é o ponto de vista que melhor se enquadra nos meus conceitos.

Sendo objetivo e direto: eu sou contra o aborto, mas a favor da legalização do aborto. Ou seja, segundo os meus conceitos morais e religiosos (visto que a Grande Lei da minha religião –Wicca – é: “Faça o que desejar sem a ninguém prejudicar”) eu me coloco contra o aborto, visto que isso iria contra a minha moral e ética pessoal. Por isso eu não incentivaria ninguém a realizá-lo e nem o realizaria como médico. Entretanto, sou a favor da legalização do aborto, e é isso que quero explicar.

Numa das discussões no fórum desse site, o meu caro amigo Benedito Duncan citou uma frase com a qual devo concordar plenamente: “Abortos sempre vão existir, independente de a lei autorizá-los ou não.” E isso é fato.

Segundo o Instituto Guttmacher (http://www.guttmacher.org/in-the-know/safety.html), o aborto induzido ou interrupção voluntária da gravidez possui um baixíssimo risco de morte: entre 0,2 a 1,2 em cada 100 mil procedimentos com cobertura legal realizados em países desenvolvidos. Este valor é mais de dez vezes inferior ao risco de morte no caso de continuar a gravidez. Pelo contrário, em países em desenvolvimento, onde o aborto é criminalizado, as taxas são centenas de vezes mais altas atingindo 330 mortes por cada 100 mil procedimentos.”

Essa para mim é a grande questão, havendo ou não a legalização, sempre existirão mulheres que optam pelo aborto e não é da nossa alçada julgá-las. Então temos duas escolhas:

1.    Continuar a criminalizar o aborto, colocando em risco não só os fetos (que muitas vezes não são completamente retirados e acabam por desenvolver-se com seqüelas irreversíveis de uma tentativa de aborto mal feita), mas também as mães que se submetem a métodos arcaicos ou a clínicas clandestinas que oferecem um alto risco para a sua saúde;

2.    Ou então podemos apoiar a legalização do aborto (que é sim diferente de apoiar a prática do aborto) fazendo com que a grávida possa ter assistência médica qualificada (de médicos que apóiam o aborto) para realizar o procedimento com segurança como já acontece em países desenvolvidos e assim aumentar as chances de vida da mulher.

Com toda a certeza essa discussão ainda vai render muito. Mas sei que não devemos nos prender a opiniões impostas por ninguém (inclusive por mim nesse texto), se não somos capazes de raciocinar e desenvolver uma opinião concisa sobre um assunto é sempre melhor não opinarmos sobre ele e tentar buscar maiores informações antes de assumir uma postura radical baseada num conhecimento falho. Por isso quero terminar esse texto com uma frase de um dos maiores músicos brasileiros da atualidade, Seu Jorge, de quem sou grande fã e que se encaixa perfeitamente no assunto:

Moro no Brasil, não sei se moro muito bem ou muito mal. Só sei que agora faço parte do país e a inteligência é fundamental.” – Jorge Mário.

Comentários
monicaarla   |Registered |19-09-2008 23:12:06
Pois é, moramos no Brasil. Como anda a saúde pública do país? Quantos leitos de maternidades públicas existem nesse país?
Eu trabalho num hospital público aqui em São Paulo e vejo diariamente mulheres em busca de vagas nesse hospital porque em seus municipios não existe maternidade ou as que existem não tem vagas suficientes.
Fico imaginando: como os hospitais conseguiriam internar as parturientes e um numero maior de pacientes que procurariam esses hospitais para o procedimento médico do aborto?
Acho, que uma legalizar o aborto também implica em se pensar nisso. O Estado terá como dar o atendimento necessário à essas mulheres?
Eu partilho, ainda, da opinião do grupo da ciencia que defende que a vida se dá na concepção.
Sophia WestWind  - Aborto - Legal ou não?     |Registered |20-09-2008 09:29:43
Este é realmente um assunto muito polêmico. Assim como você, faço parte do grupo de pessoas que crêem que a vida começa quando se forma, no embrião, o sistema nervoso. Afinal de contas, não há vida sem sentimentos. E o aborto deveria sim ser legalizado. Acho que abortar ou não é uma decisão que vai da consciência de cada um. A Constituição Federal de 1988 garante o direito à vida do nascituro, ou seja, daquele que nem mesmo nasceu, mas será concebido por uma mulher ao final da gravidez. E concordo com a Mônica: se a lei proíbe o aborto, as parturientes devem ter mais condições para tratamentos, exames como o pré-natal (entre outros) e deve haver mais leitos nos hospitais públicos.
Zeus   |Registered |22-09-2008 12:21:36
Cans, concordo com quase tudo que colocou, também sou contra o aborto, mas gostaria de evidenciar uma questão que complementa, na minha modesta opinião, o que colocou... o livre arbitrio de cada um sempre deve ser respeitado, mesmo que seja para cometer, aos nossos olhos, um grande erro... bem, minha opinião completa ficou bem clara dentro do debate do fórum neste tópico...

e sobre a concepção de quando se começa a vida, me encaixo na primeira...
arkhan  - hummm...   |Registered |16-10-2008 14:11:00
Pois é Zerzil Junior, concordo com sua opinião, mas ainda assim me deixou uma questão...
Se fossemos analizar o aborto de um ponto de vista religioso, vc naõ acha que os objetos de karma e dharma seriam prejudicados? E caso não, não seria imprudente de nossa parte influenciar nas leis da natureza, como a sobrevivência do mais forte e coisas do gênero?
djonifilho  - ;)     |Registered |17-10-2008 11:09:43
Também acredito que a vida só comece no sistema nervoso... mas até mesmo quando se trata de mim, esse assunto torna-se complicado, pois até não sabia ao certo que decisão tomar. Certamente iria pedir ajuda da Grande Mãe para tomar tal decisão, e é claro, pensar em que aspecto está levando alguem a abortar.

a) Por exemplo, se for por caso de estupro? Eu já não saberia o que responder... existiria um trauma se a criança nascesse, pois não adianta esconder, acredito que, pelo menos nesse caso, a verdade acaba aparecendo e é um trauma para a criança. E para os adultos? Esse trauma ja comeca na gravidez, aos que olharem e lembrarem que aquela vida foi fruto de um estupro. Já imaginou sempre que você olhar para sua mulher, ou ela olhar para seu filho, lembrar quando foi estuprada e quando isso aconteceu? Não gosto nem de pensar, isso é ruim para todos, inclusive para o bebê.

Mas por outro lado, é uma vida, de qualquer forma, não se deve impedi-la de viver, e talvez isso não seja nem motivo para evitar que ela exista. Coloque tudo em uma balança e veja o que pesa mais... para mim ficou igual.

Há outros casos que se devem discutir, em que a resposta é, certamente, complexa: caso de filhos que nascem sem cérebros e terão, no máximo, poucas horas de vida; caso de nascimentos em que provavelmente ocorrerá o falecimento da mãe; etc.

Então eis minha posição: deixe isso ao encargo da mãe, ela que deve decidir.
Duncan   |SAdministrator |17-10-2008 12:28:31
Um comentário: o arkhan disse: "e fossemos analizar o aborto de um ponto de vista religioso, vc naõ acha que os objetos de karma e dharma seriam prejudicados?"

E se o karma e o dharma daquela alma a conduzirem para o aborto? E se ela somente precisar de poucos meses de vida intra-uterina para cumprir sua missão nessa vida?
arkhan   |Registered |20-10-2008 17:41:06
É Ducan...vc tocou em um ponto que não havia antes analisado, mas vc utilizou a expressão "e se"...Esse é o ponto chave..e se não existisse karma? E se os deuses naño existissem...e se eu não estivesse aqui...isso abre espaço para um leque de ideias e suposições que nós naõ somos, ainda, competentes para julgar e até mesmo analisar... "poxa, se minha namorada ficasse grávida, o bebe atrapalharia minha vida" ou " se ela ficasse grávida, eu ficaria super feliz" são apenas pontos de vista, baseados no interesse pessoal de cada um, e nesse caso não há análise nem raciocínio filosófico. Apenas interesses bem definidos, mas se pensarmos religiosamente, não poderíamos ver além...não podemos julgar as motivações de cada espírito, logo que mal podemos fazê-lo com o nosso, quanto mais com outro...
A questão continuará um icógnita, pautada em interesses individuais, pois são os únicos que ainda podemos contestar e quem sabe até julgar...
LucianaO   |Author |24-11-2008 22:33:33
Eu coloco aqui a vossa disposição a minha vivência com o aborto...

http://www.womenonweb.org/attachment-2085-pt.html
douglas_maguin   |Registered |27-11-2008 21:30:28
É, concordo com o ponto de vista que a vida se forma assim que o sistema nervoso se forma.
E acho que as mulheres devem sim ter direito a abortar, apesar de também não apoiar o aborto. Mas apóio o livre-arbítrio, cada um sabe o que é melhor pra si, ou pelo menos, deveria saber, não acho pertinente interferir nas decisões das pessoas. Admito conselhos, mas interferência fere sim o nosso livre-arbítrio, na minha singela opinião.
Andreia   |Registered |27-12-2008 14:36:11
Muito bom este texto. Se algum dia eu trabalhar sobre este assunto em sala de aula, usarei este texto como referência.
Acho que cada mulher sabe o que é certo para si, e o homem também, pois segundo sei a maioria dos abortos ilegais acontecem com o consentimento dos respectivos "parceiros". Além de que, uma mulher não engravida sozinha.
Se vivemos em um país que tem como lema na sua constituição, a LIBERDADE, que ela seja feita.
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