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Evolução ou Involução? A Espiritualidade antes e depois de Cristo Imprimir E-mail
Escrito por Diannus do Nemi   
30-Jun-2008

Image"Pois aqueles que foram julgados insanos enquanto dançavam, o foram por aqueles que não puderam compreender tão bela canção..." (Nietzsche)

A visão de mundo que permeia o imaginário de muitos de nós, acerca do mundo e da espiritualidade dos homens e mulheres que viveram nos tempos antes de Cristo, pode nos surpreender uma vez observadas à luz do conhecimento.

Adoração a falsos deuses, prostituição, homossexualidade, promiscuidade. Coisas que pertenciam a um mundo sujo e vazio, coisas que ainda pertencem na mente de algumas pessoas (por que não na mentalidade de alguns historiadores?) e que não necessariamente são verdade. Coisas que uma vez compreendidas, histórica e socialmente, contribuem para a expansão da nossa mentalidade fazendo com que entendamos o mundo como era antigamente. Para podermos perfeitamente entendê-lo (e principalmente compreendê-lo) como o é nos dias de hoje, em meio a tanta confusão e falta de espiritualidade.

Comecemos com a palavra religião, que vem do latim religare, "religar-se" e "reconectar-se" ao Divino. O que não podemos esquecer é que a maneira que o indivíduo tem de contatar com o Sagrado implica em uma multiplicidade de práticas, a um nível social/psicológico. Algumas pessoas se sentem conectadas com Deus através da oração, outros da meditação, alguns com a prática da caridade e ainda outros com a dança, arte e a música. E isso não foi diferente nos tempos antigos. Logo, o que era certo e divino para alguns pode não ter sido para outros. Alguma semelhança com os dias de hoje?

Mas tal nomenclatura de "religião" pode ter permanecido desconhecida naqueles tempos, uma vez que não existia uma religião verdadeira e única. Naturalmente, cada praticante tinha como verdadeiro o que praticava, cada família tinha sua religare.

Entre os romanos, concomitantemente à religião civil do Estado e o culto público aos deuses do Capitólio, existia o que chamamos de "culto doméstico". Cada família cultuava os seus próprios ancestrais, sendo proibida a intervenção de um adorador que não tinha o sangue daqueles adorados. As famílias por si só eram sagradas, os membros se reuniam ao redor da chama do altar sagrado, que, acesa há algumas gerações, continuava a crepitar naqueles altares onde pais e filhos adoravam seus deuses e relembravam os antepassados (chamavam-nos lares ou penates). Cada família com suas práticas e orações, umas respeitando as outras.

E a maneira de viver aquela espiritualidade e vida religiosa também se divergia por entre os campos daquele vasto território do Paganismo greco-romano (pagão vem do latim paganus, aquele que mora no pagus, no "campo", ou seja, o camponês. Não tem nada a ver com descrente que não acredita em Deus, segundo o vocabulário e etimologia atual. Pelo contrário, os pagãos sempre foram muito religiosos). Aos que moravam nos campos, a maneira de reverenciar aqueles deuses da natureza era celebrando suas colheitas com fogueiras, música e dança. Os pagãos que moravam na urbe (na cidade, de onde vem a palavra urbano), por sua vez, adoravam os deuses através de orações e oferendas.

Chamadas bacanálias, festas em honra ao deus Bacco romano (de onde vem a palavra atual "bacanal" que significa orgia, e não é de todo errado), essas festas foram muito populares na época clássica, onde se bebia vinho, cantava e se fazia sexo em honra ao Sagrado. Aos olhares de um cristão extremista, tal afirmação pode parecer absurda e uma verdadeira ofensa a Deus. Mas quando nos despimos de conceitos pré-concebidos somos levados a seguinte questão: por que o faziam?

Ora, simplesmente porque suas visões do sexo e do amor não estavam poluídas com os conceitos conhecidos como "inferno", "demônio", "pecado original" e "blasfêmia". O êxtase divino podia ser alcançado pelo prazer, e o que as celebrações construíam por si só era uma verdadeira adoração à fertilidade e a vida. Os pagãos não acreditavam que eram pecadores desde o nascimento e que deviam viver uma vida de abstinência em prol de uma suposta salvação post-mortem.

Falando em sexualidade, devemos lembrar-nos que não havia entre esses povos helênicos palavras que viessem a dicotomizar os indivíduos em suas manifestações sexuais. Heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade são termos relativamente modernos. O sexo entre homens era comum, e algumas vezes incentivado. A palavra latina pupilo vem de pupu, diminutivo de “menino”, o garoto sob tutela. Em famílias nobres, o filho homem vivia parte de sua vida com um professor a fim de ensiná-lo a cultura e a vida greco-romana. A iniciação em sua vida sexual também fazia parte do processo.

Em tempos onde os sátiros dançavam escondidos nas florestas, as ninfas se banhavam nas águas limpas e os centauros cavalgavam pelos montes, a natureza não era só respeitada, mas reverenciada. Depois, o tempo passou, e o simples fato de caminhar por entre as florestas da Idade Média era visto como algo impuro, não devendo o povo das cidades se misturar com os ignorantes gentios e pagãos. Se alguém o fizesse, deveria ir logo se confessar ao padre ou ao bispo local. Pois sim, não disse Deus “crescei-vos, multiplicai-vos e dominai a terra e os animais”? Dito e feito. Olhe como estamos agora.

Nos dias de hoje, a cada esquina aparece uma nova igreja rezando alto e fazendo proselitismo maneira porta-a-porta. Umas acusando as outras de culto ao demônio e coisas semelhantes. Acusações pra lá e pra cá, e o tão sonhado ecumenismo é algo da boca pra fora e mais distante que o inferno do céu.

Isso, muito diferente daqueles tempos em que a pluralidade cultural era uma característica marcante do paganismo greco-romano. Os deuses gregos misturaram-se aos romanos, uns adquirindo as características dos outros e, assim, seus adoradores. O mesmo aconteceu quando os helenos se expandiram pelo mundo, mesclando seus deuses às demais culturas, sincretizando-os aos dos outros povos. Assim, também os seus adoradores.

Uma tática política? Talvez, mas de todo, uma união na maioria das vezes, espirituosa.

Enfim, uma vez que os conceitos de “certo”, “errado”, “sagrado” e “profano” são muito relativos e discutíveis, vale lembrar uma análise mais do que necessária quando utilizamos esses termos: Talvez a verdadeira mensagem de Jesus sobre “amai-vos uns aos outros” tenha se perdido entre aqueles que vieram professar suas palavras e que viveram depois dele. Naturalmente, uma reflexão é sempre proposta nesse assunto que toca a espiritualidade dos “pagãos” que viveram antes de Cristo.

Afinal, a maldade está nos olhos de quem vê. E só.

 

Diannus do Nemi.

Comentários
bruxa de évora  - OIE   |Registered |01-07-2008 18:50:59
to impressionada com vc
pf me da seu msn ou me add no meu
srtcill@hotmail.com
pf me add..
Sophia WestWind     |Registered |14-07-2008 18:28:00
Mais uma vez, Diannus nos traz reflexões a cerca do paganismo e o seu papel na sociedade atual. Maravilhoso o teu texto! Admiremos aquilo que não podemos mudar. Cada um chegará à estas conclusões, cada um a seu tempo... E isto é o que me conforta com relação à humanidade e suas mazelas.
Blessings be!
Zeus   |Registered |15-07-2008 14:02:57
concordo com o que escreveu, meus parabéns tá muito bom o texto

tenho duas considerações:

1 - é lamentável que esta moral pregada ainda influencie tanto muitos pagãos na questão do sexo e sexualidade.

2 - as relações de poder e da dominação do homem pelo homem e do homem quanto explorador da natureza, em seu modo de produção e consumo, reforçam o Antropocentrismo em relação ao meio e determinadas culturas o etnocentrismo em relação a culturas ou visões distintas.

com certeza a primeira é fruto da segunda

Novamente: tá muito bom o texto...
Sekhmet   |Registered |19-07-2008 06:48:15
Olá Diannus
Não pude deixar de me lembrar sobre Poméia quando li seu artigo.
Lá, onde o passado ficou intacto sob as cinzas do vesúvio.
Muitas coisas podem ser ditas sobre paganismo e Pompéia (Gerald Gardner que o diga), porém, o que mais me lembrou, foi o fato de terem sido encontradas capelas cristãs dentro de casas cristãs e seus vizinhos tendo a adoração de Divindades Antigas, lado a lado e, pela masrcas do que sobreviveu, sem atrito algum.
Pois é, mais uma mentira que vem sendo quebrada, a de que cristãos não se davam bem com as práticas antigas nesse local.
Criamos e recriamos conceitos, ao mesmo tempo que damos vida a novos preconceitos.
Nos locais em que a religião serve ao estado, ou aos interesses financeiros (não vejo muita diferença) há a perversão das crenças em morais irracionais que deturpam seus próprios fundamentos, seu início.
Depurar a história é compreender nosso presente, pois o sábio olha para trás. Sinto, profundamente, quando escuto, em alguns locais e de algumas pessoas, não todas, que o estudo não se faz necessário que o paganismo se faz somente sentindo os Deuses.
Concordo que esta parte é fundamental, mas o estudo se mostra, sempre, uma ferramenta fundamental tanto para conhecer mais intimamente o que Deuses são como para compreender nossos próprios limites de aceitação do outro.

Adorei o texto e os pontos que você abordou no decorrer dele.
Blessed Be,
Sekhmet.
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