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Escrito por Luciana Onofre Martins   
15-Jul-2008

ImageDar tempo ao tempo, ou tudo vem ao seu tempo, ou não atropele o tempo, ou tenha paciência olhe ao seu tempo... É o que escutamos sempre.

O Tempo é um termo que acompanha ao ser humano desde o momento em que ele entra na idade da razão, e entende que seus atos, pensamentos, cotidianos dependem do tempo. Do cronológico em primeira instância, e depois de outros tempos, do biológico, do mental, do espiritual, emocional...

O Tempo passa a ser senhor absoluto, que a tudo acompanha, ao imortal e ao mortal, ao vivo e ao ausente de vida.

Mas como é complexo entender a sua dinâmica, aceitar que de fato o tempo, necessita de tempo para acontecer, e que as coisas, elas ocorrem melhor, são mais otimizadas se lhes dermos tempo para que cheguem, para que venham e aconteçam.

No mundo do espiritual, e me refiro ao mundo das vivências, não ao outro lado, ocorre que a premência ou avidez, ou sede por ver acontecer, faz com que imprimamos uma celeridade incauta exatamente a aquilo que deveríamos aprender a esperar, a saborear, a degustar, entender e internalizar a contento. Que é a nossa escolha espiritual, qual caminho seguir, o que vir a ser, o que ser, que nome dar-lhe ao que sinto, ao que me preenche.

Daí, pela pressa, não temos tempo para nossas escolhas, nem tempo para apenas observá-las e discernir se são corretas para nós, se farão por nós o que esperamos, ou se somos nós, indivíduos feitos para isso.

Parece que somos bombas-relógio, com tempo curto de sobrevida, com minutos contados, com o momento menos pensado já anunciado. E saímos nessa correria sem rumo certo, e não contentes em correr levantando poeira, queremos, desejamos, precisamos de companhia nessa empreitada. E aí muitos se tornam sedutores de almas, de mentes, com o intuito de ter com quem correr ao seu lado.

Quantos séculos, ou centenas de anos transcorreram para que uma civilização se construísse, se firmasse e depois viesse a ser conhecida pelo resto do mundo, que concomitantemente também se construía nesse intervalo?

Quantos indivíduos surgiram e se tornaram estudiosos, praticantes, sábios, e depois foram substituídos por outros, no fazer e tecer uma religião, uma sociedade religiosa?  E se somados ao todo, desde o primeiro passo até o auge daquele nicho religioso, em anos, em idades, não resultariam em cifras estratosféricas?

Se assim foi, se assim é, como podemos aqui, neste momento, no nosso hoje, atropelar o tempo? No desejo de deter dentro das nossas mentes toda essa sapiência que foi elaborada por séculos e séculos?

Estamos em desvantagem quanto aos núcleos familiares dos quais viemos, no que se refere à correlação crença-tempo, por que na maioria dos casos, as famílias são católicas, o que lhes dá uma vantagem temporal, de costumes apreendidos, pois se nasce nesse núcleo e se cresce imerso nele, tendo como naturais os atos e práticas religiosas dessa crença. Sim, pode ser algo autômato, e é, mas assim ocorre.

Então em dado momento dos nossos tempos, decidimos que a vida religiosa que se almeja é outra, uma que não é tão popular como aquela que estamos deixando para trás. E da qual encontramos dados, e vemos acontecer sem maior esforço do que acordar e ligar a TV, e ver um padre ou pastor falar da sua crença, discorrer dos seus mistérios, ver acontecer uma missa, lá na esquina da nossa rua, ou via satélite.  Escutar alguém no lar contando causos de santos, de padroeiros, ou deparar-se com um altar na sala da casa.

Mas, cheios de euforia, repletos de boa vontade e de motivação pela  ruptura com os dogmas que nada dizem ou atraem, os indivíduos passam a correr contra o tão temível tempo, pois ele é desfavorável para o objetivo proposto, afinal, tem que ser apreendido e praticado todo um sistema religioso pagão, em poucos instantes, para poder levantar a cabeça e afirmar, sou pagão, pertenço a tal tradição, e sei mais do que possam imaginar...

Qual o mérito nisso? Ou melhor, o que de bom e proveitoso pode advir desse labor célere, sem tempos, sem intervalos? Falta de fôlego, de critério no que concerne as escolhas feitas, um fanatismo travestido de interesse e devoção pela nova religião... E cedo ou tarde, arrependimento por essas escolhas.      Ou pior, um vazio, que não tem como ser findo.

E desistências, inúmeras dentro do Paganismo, evasão quiçá não em massa, mas evasão.  Evasão de quem nem chegou a se sentir fazendo parte. Por que não se permitiu ter tempo para observar, para analisar e compreender e depois decidir se esse era o caminho.

Cada ser humano tem seus tempos, seu ritmo, sua dinâmica interna para vivenciar as experiências espirituais, para administrá-las, digeri-las, gerenciá-las e internar o externo em seu escopo religioso.

O esgotamento e a saciedade instantânea diluem as experiências em nada, atropelam as possibilidades, as potencialidades, e desinteressam automaticamente a pessoa que mergulha sem saber em quais águas está penetrando, fazendo com que ela, fique à procura constantemente de novas sensações mentais, emocionais, físicas, que nunca serão completamente alimentadas, por não haver tempo para senti-las.

O mundo do Paganismo é maravilhosamente diverso, imensamente profuso, inumerável quanto a vivências e leituras; não somente quanto a panteões, deidades, mas a experiências pessoais.

Devemos aceitar que é humanamente impossível que possamos experienciar tudo isso, apenas neste ciclo de vida. 

E desacelerar o espírito, a alma, a mente.

Entendendo que assim como possuímos um relógio biológico, que se descompenssa quando o forçamos, o espírito, deve ser respeitado, e protegido de arremessos à distância.                    

Nem devemos deixar-nos levar pela euforia coletiva, onde devo ser o que os demais são, devo seguir esse caminho, devo integrar-me a isso, tendo em vista que eles dizem estar bem e ter-se encontrado...

Fazer parte é uma necessidade nossa, do ser humano, nascemos para ser socializados, e a vida espiritual corre bem, quando somos acolhidos por um grupo social, que compartilha os mesmos objetivos ou é movido pelos mesmos interesses, é saudável ser parte. Sim, quem diria que não...

Mas, - como tudo há um, mas-, precisamos ser acolhidos por quem respeite nossos ritmos, por quem aceite desistências, ou tempos, para que cada um crie certezas, respeito vindo daqueles que seguem os mesmos passos, mas em tempos diversos.

Torna-se necessário que haja compreensão entre os pagãos, para com outros pagãos, que se aceite a existência de outros pontos de entendimento, de outros velocímetros de aprendizagem e vivências. E da possibilidade de que sim, de que eu ou você, por ter tido tempo, pesquisado, tentado, descubramos que quiçá esse paganismo que escolhemos, não é o paganismo para o qual somos feitos.  E que outro caminho pagão possa vir a ser o ideal para nós.

Permita-se aceitar os outros tempos, as outras escolhas e aos outros em seus ritmos, sem encará-los como traidores, superficiais ou confusos.

Este tempo, nosso, é ínfimo se comparado ao tempo do tudo que nos cerca, do tudo no qual acreditamos, então não sinta culpa ao descobrir que você foi feito para um caminho que não é o atual, ou se o que você está descobrindo não possui a mesma dimensão que para outros detêm.

Use com sabedoria o tempo, ao seu favor, e pense que apenas neste ciclo, nesta vida, você deve saber buscar o que melhor pode satisfazer suas necessidades religiosas e emocionais. Pois somente há hoje, o agora.

O tempo deve ser aceito, e tido como coadjuvante da sua caminhada, da sua vivencia pagã.

Tenha tempo para ofertar-se tempo, e aceite os tempos de outros que como você, desejam o mesmo: viver um Paganismo cordato e consciente.

Comentários
Sophia WestWind  - Tempo é arte!     |Registered |17-07-2008 17:14:16
Vivemos tanto tempo sob a falsa idéia de que tempo é dinheiro que, muitaz vezes, esquecemos que não existe moeda de troca a altura do nosso irrefutável tempo. Estamos entrando em um novo ciclo e descobrindo que tempo é arte. É um dos elementos fundamentais para a criação. Amiga e irmã secular, adorei o teu texto. Abençoada sejas!
LucianaO   |Author |17-11-2008 10:50:44
Eu que agradeço a tua boa apreciação!
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