|
"Abençoadas, abençoados os que dançam juntos; Abençoadas, abençoados os que dançam sós (...)." Quando conheci a Wicca há alguns anos, minha primeira expectativa era com certeza encontrar outros praticantes, não somente para compartilhar conhecimento, mas principalmente para abrir meus horizontes e celebrar os Deuses Antigos acompanhado de outros irmãos.
A princípio, a tarefa me pareceu ser fácil, pois me bastaram alguns poucos contatos pela Internet e minha lista de amigos virtuais que aparentemente compartilhavam das mesmas crenças que eu, cresceu de forma surpreendente. Com o passar do tempo, percebi que a tarefa que antes me parecia fácil, era na verdade dificílima: a esmagadora maioria das pessoas da qual eu havia travado contato, em poucos meses já não se interessavam mais pelo assunto; algumas outras, revelaram ter interesse por caminhos diferentes daquele que escolhi e exatamente aquelas nas quais percebi que poderia dividir prática e conhecimento de forma coerente com minhas expectativas, moravam muito longe de minha cidade. Mas eu estava realmente decidido a entregar minha vida como instrumento nas mãos da Deusa e Seu Consorte, independentemente das circunstâncias que me rodeassem no momento ou viessem a me assolar no futuro. Não fugi, nem procurei desculpas para não prosseguir: aceitei que deveria começar minha caminhada sozinho. As dificuldades que enfrentei no início não foram poucas. Exatamente por não ser um Bruxo da tão velha-guarda, me perguntava diariamente então como havia sido a caminhada daqueles que chegaram antes de mim. A quantidade de livros, sites e outros meios de informação que existem hoje eram extremamente escassos, e me vi obrigado a confiar simplesmente naquilo que eu tinha possibilidade de ter acesso, praticando e confirmando minhas experiências de forma solitária, com a ajuda de alguns poucos amigos mais experientes, mas que estavam muito longe fisicamente para poder compartilhar exatamente a prática. Nessa caminhada, observei muitos erros... Muitos tropeções... Mas afirmo com toda certeza: tive muito, mas muitos acertos e a experiência de comprovar isso mais tarde através do contato com outros praticantes, é realmente recompensadora, para não dizer emocionante. Muitas pessoas afirmam categoricamente que a Wicca não é uma religião para ser praticada de forma solitária, exceto raros casos onde o dito eremita já tenha passado uma vida inteira dentro de um coven e já possua experiência suficiente para continuar sua jornada sozinho. A maioria das pessoas que defende essa questão, são pessoas que compartilham do pensamento de que a Wicca é uma religião de poucos escolhidos que precisam necessariamente descender de alguma linhagem mágica físico-ancestral, e que é necessário pertencer a esses pequenos clãs para ter uma legítima conexão com a Deusa e o Deus em sua essência toda especial. Sem querer desmerecer essa opinião, respeitando a diversidade dos pensamentos (e exatamente por isso manifestando esse parecer), também afirmo categoricamente que - não só por experiência própria, mas principalmente observando outros semelhantes no Caminho – essa visão não é e nem deve ser considerada válida para todos; aliás, diga-se de passagem, não é a visão que encontra-se no cenário da Wicca contemporânea. A grande maioria dos bruxos wiccanianos ao redor do mundo são necessariamente solitários e poucos são aqueles que tiveram a sorte de encontrar um bom grupo onde pudessem compartilhar suas experiências. Felizmente, nos dias de hoje, muitos dos veículos que antes eram inexistentes para os praticantes solitários são atualmente abundantes. A cada ano, muitos bons livros são publicados e traduzidos e cada vez mais pessoas têm acesso a um conhecimento que antes era restrito a isolados e pequenos círculos. O lamentável disso tudo é que charlatões também existem nesse caminho – identificá-los, com certeza, faz parte do caminho do praticante solitário e essa talvez seja uma das tarefas mais difíceis. Entretanto, não creio que isso sirva de impedimento para se continuar a trilhar, pois para mim ao menos não foi – muito pelo contrário: foi instigante, e ao final de cada decepção, veio o frescor da esperança renovada. É exatamente essa instabilidade e imprevisibilidade no caminho do Bruxo solitário, que faz sua jornada diferente e toda especial: afinal, acabamos por nos sentirmos muito mais valorosos e corajosos, tendo superado nossas dificuldades e conseguido absorver conhecimento e sabedoria através de nossas próprias práticas e vivências com os Deuses. Essa afirmação, não vem para desmerecer aqueles que dançam a Roda da Vida e da Morte em grupo; pelo contrário, a vivência em grupo obviamente é maravilhosa. Essa afirmação tão somente vem exatamente para valorizar aqueles que dançam e caminham sós, de forma real e reconhecidamente sacerdotal. Se você que está lendo esse texto, pretende iniciar sua jornada agora ou iniciou recentemente, tenha certeza de que é um ser precioso para os Deuses Antigos. Mas tenha certeza também de que o caminho é árduo, cheio de dores – e recompensas. Tome sempre muito cuidado na direção que decidir e esteja sempre atento aos chamados do seu coração. Busque livros confiáveis e informações com grupos e instituições que trabalhem de maneira séria e coerente em sua cidade; você poderá reconhecê-los ou não. Decepções também farão parte de sua caminhada. E lembre-se sempre de algo muito importante: dois bruxos sempre se reconhecem independente da Tradição que seguem – se isso não acontecer e o respeito não for mútuo, é simplesmente porque um deles não é verdadeiramente um sacerdote dos Antigos e exatamente por isso, não os reconhece na face de seus semelhantes. Seja feliz, seja pleno, seja com Eles. Dançando junto ou dançando só. Abençoado seja pela Senhora dos Caminhos!
|