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A dança dos índios Imprimir E-mail
Escrito por Terra Vermelha   
05-Out-2007

ImageEste texto surgiu a partir de situações bastante peculiares que vivi, mas que acredito que faça parte da experiência de muitas pessoas. Há algum tempo atrás fui tentar entrar numa repartição pública quando fui barrado pelo segurança dizendo que não podia permitir minha entrada pois estava usando bermuda. No dia fazia um calor infernal de quase 40º e aquela cena me deixou bastante conturbado.

Me perguntava como num país tropical éramos obrigados a usar calças cumpridas só porque alguém disse que tinha que ser assim. Imediatamente me lembrei dos índios que aqui habitavam nus ou semi-nus essas terras.

Uma outra coisa que me fez refletir foi uma busca no site Youtube por vídeos dos índios norte-americanos. Durante a pesquisa me deparei com índios Pow-Wow dançando e apresentando-se numa quadra de esportes de algum colégio. Percebi no modo maravilhoso como dançavam. Eles rodavam, pulavam num pé só, gritavam nas suas vozes roucas imitando sons da natureza. Eles rodavam entre si como se estivessem imitando o movimento perpétuo dos astros. Para as mentes dos brancos, suas danças podem ser esquisitas, seus cânticos engraçados e seus movimentos lunáticos. Para mim, no entanto, senti uma profunda tristeza e saudade. Vi como nosso mundo é pobre e imbecil.

Isso me levou à retornar meus conhecimentos históricos sobre a suposta evolução da humanidade, uma idéia extremamente maleável e manipulável, por sinal. Me lembrei das tribos africanas e indígenas, tradicionalmente com religiões ligadas à terra. Lembrei-me das danças africanas, seus gritos e seu senso de comunidade e de repente me falei: Gente, isso tudo se perdeu. Me lembrei das igrejas cristãs convertendo todas essas culturas. Elas gradativamente perderam suas cores e seus gritos, suas danças e seus mitos, suas roupas e seus rituais coletivos.

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Aqueles índios  dançavam com alegria, com força, com beleza, com segurança. Deixavam que sua mente interior os guiassem. Abandonavam-se na dança sagrada desenvolvida por seus antepassados ao longo dos séculos. Eles vibravam. Sim. A palavra certa é vibrar na emoção daqueles gritos e giros. Se antes esses rituais eram assistidos e banhados pela luz do sol e pela poeira da terra, hoje estavam encobertos pelo teto da quadra de basquete e pela assepsia do seu chão artificial.

Isso me fez ver como nossa vida é medíocre. Onde estão as danças sagradas da nossa sociedade? Dançar ajuda a libertar o corpo e o espírito, dançar ajuda a liberar as tensões. Ainda que seja apenas uma das formas de se entrar na mente interior, sua potência se faz sentir em toda a tribo. Todas as antigas religiões da terra, sejam na África ou na América, tinham suas danças sagradas. Isso foi destruído pela evangelização cristã por ser visto como uma prática primitiva e pagã. Hoje as únicas danças são aquelas vindas de cultos histéricos ditos evangélicos sem nenhum símbolo ou roupas especiais, e feita por gente desesperada, lutando para sobreviver e pedindo para que algum macho espiritual lhes forneça suporte e sustento no mundo material ao qual dão o nome de Senhor, mas que em nada tem a ver com o antigo Grande Espírito dos povos de pele vermelha. Há também no Brasil os cultos afro-brasileiros que vêm tentando sobreviver em meio a tanta perseguição

Mesmo entre os iniciados de hoje, as pessoas espiritualmente desperta nas nossas sociedades capitalistas, urbanas e industriais, a dança sagrada morreu. Se propormos isso a um grupo de pessoas, todas quase que sem exceção terão vergonha de dançarem, de libertarem seu corpo das amarras da consciência objetiva e racional. Terão medo de “pagarem mico”. Terão medo de que alguém vá rir de seus movimentos espontâneos, do ritmo de seus corpos. O som dos tambores e das vozes roucas dos cantores das antigas religiões morreu. Os gritos estranhos que anulavam nossa consciência objetiva e abria as portas do nosso subconsciente hoje são motivos de chacota e riso entre os imbecis. São covardes que não tem coragem de alcançarem a liberdade do seu próprio Ser e se comprazem em desfazer de outros por não terem coragem de olhar para sua própria miséria espiritual.

Outra coisa que me chamou muita atenção são as roupas dos índios Pow-Wow. Eram espalhafatosas, coloridas, elegantes, expressavam a alma, as aspirações de cada individuo da tribo, que juntos compunham o coletivo da dança. Eram produzidas por eles mesmos. Além dessas roupas, minha consciência me conduziu para as pinturas no corpo utilizadas pelos povos que mantinham a religião da terra. Elas expressavam a natureza de cada um e a identidade coletiva do grupo. Eram símbolos da espiritualidade, da força e da beleza. A tatuagem, as tintas de urucum, as marcas do corpo embelezavam, davam cor ao cinzento dos corpos naturais.

Hoje quais são as nossas roupas? Todas padronizadas pela indústria. Sequer sabemos de onde elas vêm. Suas formas são padronizadas no mundo inteiro, seu conteúdo é morto. Não temos nenhuma referência sagrada com as vestes que usamos. Não temos danças, não temos roupas que celebrem a espiritualidade, não temos marcas em nossos corpos. As roupas são apertadas pelo terno e pela gravata para mostrarmos retidão no nosso comportamento. As roupas servem para diferenciar a classe social uns dos outros. Servem para dizer quem é melhor que outro. É proibido tatuarmos nossos corpos sem o prejuízo de corrermos o risco de ficarmos fora do sistema produtivo (do mercado). Nossas maquiagens expressam artificialidade. Se nossos homens utilizarem maquiagem, tal como os antigos habitantes da África e da América isso é repulsivo. A beleza sagrada dos corpos e das roupas morreu.

Talvez uma das causas da nossa sensação de aquecimento global é a obrigação estúpida de usarmos calças cumpridas num país tropical para entrarmos em instituições públicas. Tenho que me vestir “direito” para reclamar meus direitos, senão não tenho “honra” suficiente para tal. Ora, o que é isso? Os índios da América do sul viviam muito mais de acordo com seu clima do que nós. Um dos primeiros Governadores Gerais dessa maldita história do Brasil perseguia os índios que estivessem nus ou semi-nus  por eles ferirem as leis morais do “Senhor” Deus.

Essa semi-confissão minha neste texto não é uma crítica pura e simples à modernidade, pois essa morte havia acontecido antes mesmo do aparecimento das indústrias e desse processo de catástrofe ecológica que estamos vivenciando, sobretudo por causa da maldita herança romana da propriedade privada.  Isso é uma crítica à nossa vergonha em dançar, em usar roupas coloridas, em tatuarmos e nos maquiarmos para celebrar a esfera do sagrado. Dentre todas essas práticas talvez a dança seja a mais importante pois libera a mente de uma forma bastante peculiar.

O leitor pode perguntar-se: Mas então como podemos fazer para resgatar essas práticas se não temos contato com os índios nem com as religiões africanas, se suas danças e seus cânticos se perderam?

Isso me lembra outras duas situações vividas que podem dar a resposta. Certa vez quando visitei a cidade de Porto Alegre encontrei uma índia chamada Liana que lutava pelos direitos dos povos indígenas naquela cidade. Ela gentilmente me convidou para ir à sua casa e fizemos um pequeno encontro “indígena” quando ela fumou um cachimbo ritualístico. Percebi que ela tinha uma desenvoltura no fumar e sabia o que aquilo significava. Quando ela me passou o cachimbo eu meio que receoso de não saber como fazer, perguntei a ela como fumava-se e ela me respondeu:

- Deixe sua mente te guiar.

 

Essas palavras entraram e não saíram. “Deixar nossa mente nos guiar”.

Outra situação que me auxiliou nesse processo foi um dia em que estava na Ordem Rosacruz AMORC na cidade do Rio de Janeiro. Após o ritual, num daqueles bate-papos informais, conversávamos sobre como uma pessoa pode atingir a iluminação, mesmo se muitos dos aspectos da Tradição tivessem sido destruídos. Um dos membros falou que certa vez assistia um programa de televisão quando viu uma reportagem sobre psicologia onde um senhor muito velinho e muito erudito dizia:

- Não tem problema quando aparentemente esse conhecimento arcano das antigas sociedades tais como os egípcios e os gregos tenham desaparecido. Se a pessoa estiver conectada com a FONTE, eles retornarão, assim como vieram, e ainda que com novas roupagens. O conhecimento da Verdade estará acessível a quem retomar seu contato com a fonte de onde ele proveio.

 

Esses dois fatos me fizeram refletir bastante e associei isso com as antigas danças, roupas e marcas dos povos da terra e que a civilização fez o favor de criar uma série de bloqueios que nos impede de conviver com essas realidades.

Para entrar nesse assunto mais aprofundadamente é preciso refletir sobre o que venham a ser a dança, as roupas ritualísticas e as marcas. Elas são simplesmente meios para nos fazer alcançar um fim.

As roupas e as marcas nos ajudam a criar uma identidade com o sagrado e com a “egrégora” com a qual nos identificamos ou qual a qual estamos ligados por nascimento. A dança é um método de nos fazer entrar em contato com nosso subconsciente, como havia dito anteriormente. Existem outros métodos tais como a meditação, os exercícios yogue etc. Existem muitos métodos de se bloquear a mente objetiva e deixar que a mente interior atue no homem. Todos esses métodos foram perdidos pelo homem Ocidental comum, pois suas religiões não o levam a se harmonizar com a fonte Divina que existe em seu interior, ou seja, não o permitem ter uma elevação do nível de consciência (aliás, talvez seja por isso que a maioria teme a morte, pois nunca experimentaram um estado de consciência diferenciado do objetivo e racional a não ser pelos métodos artificiais das drogas).

Talvez para o místico moderno, esse que busca resposta em todos os lugares, seja no oriente seja no xamanismo, exceto nas religiões monoteístas onde o Deus é um Senhor e o crente é um Servo (reparem que esse tipo de relação com Deus reproduz exatamente a estrutura social da Idade Média, justamente o local e o tempo em que essa mesma crença foi criada), a melhor maneira de viver seja seguir um caminho misturado.

Parafraseando o grande mitólogo Joseph Campbell: “Atualmente, todos estão à procura de algo que perderam. Alguns têm consciência disso. Outros, ainda nem perceberam o fato, e estão passando por maus bocados”.

Quando vou às boites atuais e vejo pessoas ditas alternativas, com roupas coloridas, dançando a noite inteira com passos esquisitos e “engraçados” e muitas vezes utilizando-se de ecstasy para alcançar um estado alterado de consciência, vejo isso como uma lembrança inconsciente do que nossos antepassados faziam. Ainda que nossas formas atuais de efetuá-lo seja bastante duvidosa e totalmente desvinculada de qualquer relação com o Sagrado, ainda assim eu vejo esse processo como um impulso da mente interior para resgatar essas formas de dança, cor, e consciência fora do mundo racional e frio. Infelizmente esse processo é totalmente inconsciente e funciona mais como um alimento momentâneo para o Subconsciente do que como a criação de um processo novo. 

O que é mais interessante dessas raves e dessas boites modernas, sobretudo as casas voltadas para homens de natureza feminina, mulheres masculinas e kathoeis1, é que tudo funciona como um chamado subconsciente. A música eletrônica tem sua especificidade e seu atrativo, pois não tem os passos acertados e programados das danças tradicionais. Não tem a rigidez racional. A única coisa que guia os passos desse dançar é o corpo, é a vibração do som que nos puxa para um lado ou para o outro. É o impacto do som alto das caixas que joga nossa cabeça para cima e nos faz vivenciar um mundo de incrível prazer.

A música parece que nos fala numa outra linguagem. Primeiro por ser universal, segundo por ela nos colocar num estado de consciência diferenciado. Os atabaques africanos, os gritos indígenas, as pancadas do som eletrônico, todas essas vibrações parecem bater na gente. Dançar é quando o sistema nervoso cérebro-espinal passa a ser regida pelo sistema nervoso autônomo e a partir deste o influxo cósmico vêm.  No entanto, infelizmente, essas danças eletrônicas não possuem vínculos com o sagrado, embora funcione como um exercício para o corpo e uma abstração para a mente moderna carregada de problemas e de preocupações acerca da sobrevivência.

Hoje em dia a sociedade degrada o uso de entorpecentes como forma de “fugir” da realidade. Sem querer aqui fazer qualquer tipo de apologia, não acho que fugir da realidade momentaneamente seja uma prática perniciosa. Acho que em tudo devemos seguir o caminho do meio ou a justa medida em todas as coisas, como dizia Aristóteles. Entrar em contato com a mente interior é tão saudável para a saúde do ser psíquico e material quanto vivermos uma vida plena no mundo material. Para fazer esse contato alguns utilizam a meditação, as danças, as drogas entre outros (reparem que o conceito de droga também é maleável e relativo). Os índios faziam e fazem até hoje uso de ervas naturais como forma de auxiliar nesse rebaixamento da consciência e nós porcos civilizados chamamos isso de uso de cocaína, quando que os motivos que fazem um europeu encher o nariz e o rabo de cocaína são bastante diferentes do uso ritualístico de ervas para se atingir o Sagrado.

Na questão das roupas, podemos perceber a própria sociedade hindu. Suas roupas são coloridas, alegres. Quando foram convertidos ao protestantismo britânico passaram a usar roupas sóbrias, frias, de botão, terno e gravata, para serem homens corretos. Essas pessoas são apáticas com vergonha de tudo e associando o demônio ao que foge desse padrão. Apatia e vergonha talvez sejam os melhores termos para definir nosso pensamento atual com relação a essas coisas.

Por fim, respondo à pergunta inicial de como podemos fazer para resgatar esse universo. Primeiro é preciso libertar-nos do bloqueio da vergonha de fazermos certas coisas. Segundo é preciso respeitar os outros e não ver graça aonde há a busca do contato com o sagrado. Terceiro e talvez a parte mais importante é deixarmos nossa mente nos levar e sentirmo-nos conectados com a Fonte.

As danças tradicionais e seus cânticos não foram dados aos índios ou aos povos africanos de graça nem por deus e nem pelos discos voadores. Elas não “sempre” existiram. Elas foram criadas e desenvolvidas a partir da conexão de mentes superiores das tribos com o sagrado. Essas pessoas auxiliaram a criar tais métodos, auxiliaram a criar as roupas que hoje vemos. Toda a Tradição que vemos hoje foi criada aos poucos com o passar dos anos, na tentativa do erro e do acerto e na capacidade do grupo de se harmonizar com o Transcendental a partir daquelas práticas.

Não sei se algum dia vamos conseguir restaurar qualquer tipo de grupo particular com suas danças, roupas, cânticos e marcas específicas. E nem sei se isso é desejável. Aliás, sou bastante pessimista com relação ao futuro. Talvez possamos começar realizando nossas danças individualmente nos nossos quartos. Restauremos o uso da maquiagem, dos sinais nos corpos, criarmos nossas próprias músicas com vozes roucas. Criemos coisas que nos identifiquemos e que expressem nossas aspirações. Podemos fazer isso individualmente ou em grupo no caso de queremos criar nossos grupos com novos referenciais. Mas sempre haverá o cuidado do vizinho das super inchadas cidades não olhar, não ouvir, não sentir e não fazer disso um motivo para chacota.

Não existem métodos mais certos nem danças melhores que as outras. Todo esse conjunto de práticas é fruto da nossa mente interior e todas são um meio para alcançarmos o fim de experimentarmos a ligação com o Sagrado. Dancemos então, ainda que secretamente, ainda que só com as mãos e a cabeça, imitando a eterna dança cósmica dos astros - sem vergonha de estar fazendo errado ou engraçado - apenas deixando nossa mente nos levar ao mundo do desconhecido! Deixemos nos levar pelo remexer do quadril, o rebolar das mãos, o balançar da cabeça, o pular o corpo, o bater dos pés na poeira do chão, pelos gritos, pelos sons e pela música.


Paz Profunda!

Nota:
(1) Kathoei é o que seria conhecido como travestis, seja de homens que querem ser mulheres, seja de mulheres que querem ser homens. Vocábulo de origem tailandesa.

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