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As vezes, certas dúvidas cruzam o nosso caminho na Arte, questionamentos aparentemente sem solução, idéias que intuitivamente discordamos, e que, por força de nosso modo ainda limitado e linear de estar no mundo, tentamos reduzir a raciocínios lógicos, dissertações, formas-pensamento logicamente aceitas.
Uma forma interessante de buscarmos soluções para esses entraves é procurar respostas dentro de algum mito que relacione-se com o assunto. Afinal de contas, somos pagãos, e é através dessas analogias e amplificações que, se não chegarmos a uma conclusão, pelo menos vislumbraremos novas nuances sobre velhas tinturas.
Agrada-me, particularmente, dentre os incontáveis mitos relacionados à transformação, o da Descida de Inanna ao Submundo. Nele, uma Deusa suprema, Senhora dos Céus e da Terra, encara o desafio de percorrer caminhos para ela desconhecidos, para, no final, ressurgir. "Inanna era a Rainha do Céu e da Terra, e não conhecia nada sobre o submundo e decidiu ir até o reino das sombras aprender os mistérios da vida, da morte e do renascimento.
Todos os que desejavam visitar o submundo deviam passar pelos sete portões que davam acesso ao interior do reino das sombras. A cada portão, era necessário deixar algo de sua vestimenta ou um ornamento que portasse, até que no final chegasse nu para o julgamento (...)
Ereshkigal ordenou que Inanna obedecesse às leis do submundo. Ela não poderia entrar lá se não deixasse todas as coisas para trás. E assim Inanna passou pelos sete portões (...)
Ao chegar no sétimo e último portão, ela encontrou Ereshkigal, a Rainha do Submundo, e estava sujeita às leis do lugar a partir daquele momento. Ao se colocar diante da irmã sombria, Inanna foi assassinada com um grito aturdido, e Ereshkigal pendurou o corpo inerte em uma estaca. Dessa forma, a Deusa da Morte assassinou a Deusa da Vida, a Rainha do Céu foi exterminada pela rainha do mundo inferior" . (1)
É de se espantar, para muitos, atitudes como esta, de desapego, coragem e humildade. Desapego por deixar de lado todos os seus pertences, bem como sua condição, o status quo, que no caso da Deusa era inquestionável. Humildade por colocar-se a mercê de sua face negra, a Deusa da Morte, e sujeitar-se às leis de um mundo que não é o seu. E coragem, pois esta é uma prerrogativa para qualquer forma de desapego e humildade que não conduzam à subserviência, nessa postura de ovelhas a espera de um pastor que estamos tão acostumados a presenciar. "Quando Enki percebeu que Inanna não retornava do submundo, decidiu criar duas criaturas para verificar o que estava acontecendo (...) Quando Enki enviou as duas criaturas para resgatar Inanna, Ereshkigal estava sofrendo para dar a luz. As criaturas de Enki, ao perceberem que ela estava sofrendo terrivelmente, compadeceram-se dela. A Deusa da Morte ofereceu uma recompensa pela compaixão devotada. Kurgarra e Galatur pediram que ela libertasse Inanna de forma que a Deusa pudesse retornar ao mundo superior e retomar seu reinado. Ereshkigal disse que ninguém que entrasse no seu mundo poderia retornar, mas ela iria honrar sua promessa e entregou o corpo de Inanna a Kurgarra e Galatur. Eles respingaram água e comida no corpo de Inanna e fizeram com que a Deusa revivesse para que retomasse seu lugar como Rainha da Terra e dos Céus" (2).
Este é um mito muito importante dentro do mundo wiccaniano. Retrata o processo iniciatório a que todos nós, mais cedo ou mais tarde, vivenciaremos durante nossa viagem na senda da Deusa. E, como toda iniciação, serve de base para entendermos os eternos ciclos de nascimento, morte e renascimento simbólicos que a vida humana encerra. * * * Recentemente iniciou-se no Fórum do 3luas.net uma discussão a respeito de assuntos ligados a hereditariedade de clãs, iniciação, e ancestralidade dos praticantes da "Antiga Religião". Apesar de, na Wicca, resgatarmos cultos ancestrais, baseados em uma religião que se originou no Período Neolítico, creio que sobre essa Antiga Religião o único pensamento coerente a ser tomado pode ser um tanto triste e desconcertante para aqueles que se apegam demais ao passado e o usam para legitimar suas posturas no presente: essa Antiga Religião, que tanto é citada para validar e dar títulos a alguns, infelizmente MORREU. É isso mesmo, essa Antiga Religião foi sistematicamente massacrada, através de um contínuo de sabotagem, incorporação de valores, discriminação e perseguição de seus seguidores e destruição de seus ícones. Primeiramente através das invasões dos povos indo-europeus, que devastaram as populações da Europa e parte da Ásia disseminando sua cultura patriarcal de guerra e dominação, depois pela Inquisição, que de certa forma imprimiu valores no ocidente que perduram até hoje. Nada de novo, não é mesmo? Infelizmente estamos acostumados a ver, no presente, a mesma postura de algumas nações, empenhadas a expandir seus impérios de medo e terror. Sobre essa Antiga Religião, o pouco que sobreviveu veio misturado em uma salada cultural, formada por resquícios das práticas antigas entranhados numa carga massificada de símbolos dos povos dominadores. Como dizem por aí, a história é contada pelos que vencem, e foi isso o que aconteceu. Não existem mais seguidores hereditários da Antiga Religião, e quem disser o contrário, por favor prove isso com argumentos coerentes, não com alegações insustentáveis.
Os próprios mitos pagãos a que temos acesso, e que usamos muitas vezes como base para nossas práticas, foram contados sob um ponto de vista totalmente patriarcal, pedindo uma total releitura dos mesmos sob uma ótica pagã matriarcal. Como qualquer um sabe, Zeus é o REI dos Deuses, supremo e incontestável senhor do Olimpo, assim como Júpiter o é em Roma e Odin para os povos escandinavos. Nessas mitologias é sempre delegada às figuras femininas uma posição inferior, de coadjuvante. Os mitos da Índia também se tornaram praticamente arianos, pouco restando daqueles que eram os Deuses "mais escuros", ligados aos povos autóctones, considerados marginais perante uma sociedade que os excluiu da divisão de castas. O que era matriarcal nessa cultura, não obstante o nível de sofisticação que a mesma apresentava (3), ficou relegado a um segundo ou terceiro plano, fazendo parte da do modo de pensar de povos escravizados, mas impresso, de forma indelével, na memória do Universo. São esses registros akáshicos que a humanidade acessa cada vez na época em que vivemos, pois, como diz a Mavesper, "o mundo tem sede da Deusa" (4).
O que é a Wicca então, como ela se sustenta enquanto religião? A Wicca é RECONSTRUÇÃO! Viver a Wicca é como juntar um imenso quebra-cabeças, remendar uma colcha de retalhos, e descobrir que lindos mosaicos são feitos a partir de cacos de vidro aparentemente sem valor. É descobrir que, em meio a essa cultura de dominação, de medo, de terror, que tomou conta da Terra durante os últimos milênios, existe uma alternativa viável, que é voltar-se para a Mãe que nos acolhe, nos ensina, mas também nos conduz a momentos difíceis de provação para nos renovar em seguida. Isso é viver a Wicca, e esse é um caminho válido para todos aqueles que sentirem o chamado da Deusa em seus corações. Não é a ancestralidade que torna a Wicca válida, e sim a qualidade dos wiccanianos que a vivem como prática e religião.
Viver a Wicca é lutar, tendo como base um ponto de vista religioso, pela renovação de nossa sociedade, de nossa vida, de nós mesmos. Buscar a cura da Terra, e para isso usarmos nosso corpo, nossa mente, e a magia que realizamos através deles. Lutar pela LIBERDADE do indivíduo em meio a uma cultura de escravidão mental, física e ideológica. Como disse o Claudiney na celebração de Lammas, somos uma religião de ação, não de discurso, como tantas outras que sobrevivem de propagar discursos plenos em retórica mas vazios de vida. Por isso, por reconhecer, ter essa postura, e saber o quão vulnerável e delicada é a luta pela mudança de valores a que estamos engajados, me aborrece (já passou a fase em que eu me entristecia - como dizem, a idade vai chegando e nós ficamos mais endurecidos, mas endurecer sem perder a ternura, sempre!), me aborrece profundamente, ver a Arte ser usada como mais um meio de dominar os inexperientes e de propagar antigos valores. Dentro de tanta coisa a se fazer, de tanta mudança a ser iniciada, é inadmissível que pessoas fiquem gastando energia a favor da inércia, do retrógrado, daquilo que está corrompendo e destruindo a humanidade.
Dessa forma, não posso concordar com essa postura elitista e preconceituosa da Wicca. Wiccaniano é, sim, aquele que foi iniciado de forma tradicional, em um coven, mas é também aquele que ouve o chamado da Deusa e, sinceramente, dedica sua vida a Ela. Isso independe de hereditariedade, ancestralidade, transmissão de poder do clã ou de quem quer que seja. Wiccaniano é aquele que, vindo de onde quer que venha, tenha se sentido de alguma forma descontente com o rumo que o homem deu para o mundo atual e que usa, muitas vezes através das sombras, a sabedoria da Deusa para mudar essa realidade. Victor Anderson dizia a respeito da tradição Feri que "Feri não está em livros, não está no conhecimento que vive através de sua prática constante. Feri está na natureza, nas estrelas, na Lua, no Sol, nas árvores, e se um dia não restar um só Sacerdote de Feri, a natureza se encarregará de procurar seus novos sacerdotes, instruí-los e iniciá-los". Assim é, foi, e será. Mesmo massacrada a Antiga Religião, ela continua tocando nos corações das novas gerações que, independente de possuírem ou não alguma ancestralidade, estão se iniciando e tornando-se sacerdotes fiéis de uma Deusa que a maioria desconhece e ridiculariza.
Assim, para mim, essas imposições de alguns só podem soar como algo ridículo e anacrônico. Apegar-se a uma ancestralidade totalmente questionável reflete apenas o desejo que alguns têm de se sentirem melhores do que os outros, e vai totalmente de encontro com todas as correntes mais libertárias da Wicca moderna. Reflete, também, a ignorância de alguns bruxos dos eternos ciclos de nascimento, morte, e renascimento, pois foi necessária a morte da Antiga Religião para que a mesma renascesse em nossa Era plena de significado, poder e amor. Assim como Inanna, no mito anteriormente citado, e diversas outras divindades do renascimento, essa Antiga Religião teve que nascer e morrer para RENASCER. E, no caso dessas Deusas, o renascimento traz consigo uma mudança positiva, onde há mais poder, conhecimento, sabedoria. Para mim, o renascimento da Religião da Deusa na nossa época agrega a si Esperança para uma humanidade reprimida mas ao mesmo tempo cheia de questionamentos, em uma possibilidade inédita de curar-se e curar o planeta que habitamos.
Não é, portanto, o passado que nos validará. Ele é importante sim, pois sem raízes uma árvore não se sustenta. Mas não é só isso que mantém uma árvore viva, e sim a certeza de que, no futuro, a Deusa enviará luz, água, ar e alimento, em uma eterna sucessão de ciclos que manterá, de tempos em tempos, uma folhagem viçosa e renovada. Afinal de contas,
"Somos o Povo antigo O novo povo juntos de novo. E estamos vivos!!!"
E, em vez de reclamarmos, vamos dar graças por ter nascido nesta Era da Fênix Ressurgida.
Bênçãos renovadoras.
Duncan
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Notas:
(1) In PRIETO, Claudiney. Todas as Deusas do Mundo. 2ª ed., São Paulo, Gaia, 2003, pp. 159-61.
(2) In PRIETO, Claudiney. Todas as Deusas do Mundo. 2ª ed., São Paulo, Gaia, 2003, p. 161.
(3) Sobre a organização dos povos europeus anteriores à invasão indo-européia, disse Marija Gimbutas, citada por Raven Grimassi em seu livro "Mistérios Wiccanos: "Entre 7000 e 3500 a.C., os habitantes dessa região desenvolveram uma organização social muito mais complexa do que seus vizinhos ocidentais e do norte, formando comunidades que comumente se agrupavam em cidadelas, inevitavelmente levando à especialização do trabalho e à criação de instituições religiosas e governamentais. Eles descobriram por si sós a possibilidade de utilizar cobre e ouro na confecção de ornamentos e ferramentas, e aparentemente desenvolveram uma escrita rudimentar. Se definirmos civilização como a habilidade de um determinado povo de se adaptar a seu meio ambiente e de desenvolver artes, tecnologia, escrita e relações sociais apropriadas, fica evidente que a Antiga Europa atingiu um notável grau de sucesso".
No caso indiano, similar ao que vou acima citado, essa civilização matriarcal possuía um intenso desenvolvimento comercial, uma escrita que até hoje não foi decifrada e um sistema filosófico-ritualístico que provavelmente foi a origem do Yoga
(4) Veja o artigo de Mavesper Cy Cerridwen, disponível para leitura neste site, chamado "Para que serve a auto-iniciação".
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