|
(*) Discutir religiosidade em uma época como a nossa, na qual a Ciência vem avançando continuamente em campos outrora exclusivos do Sagrado, é uma tarefa arriscada. O perigo aumenta se inserirmos, nesse tema, assuntos controversos como homossexualidade, paganismo e misoginia. Contudo, em uma realidade onde os homossexuais, apartados de uma experiência do divino que os contemplem, perdem-se em meio a ateus convictos, fundamentalistas religiosos e gurus oportunistas, uma outra via precisa ser encontrada, nem que para isso seja necessário criá-la a partir do zero.
Há poucos dias a Folha Online publicou uma notícia (1) onde o novo arcebispo de São Paulo, d. Odilo Pedro Sherer, “endossou as palavras do papa Bento 16 contrárias ao fim do celibato dos sacerdotes, ao casamento gay e de divorciados”. D. Odilo frisa que “não está na competência da Igreja mudar o Evangelho”, e que a “proposta da Igreja (...) é sempre uma proposta de verdade, liberdade e vida, para o bem da humanidade”.
Em um contexto como este, onde as regras do jogo foram definidas sem prévia consulta, resta refletirmos se tal proposta ainda é válida para os nossos dias. Além disso (e aqui vejo algo de importância fundamental) precisamos questionar se realmente queremos ter vínculo com uma religiosidade onde conceitos como verdade, liberdade e vida ainda são vistos sob esta ótica exclusivista.
Entretanto, acho oportuno advertir que depreciar a relação com o divino de qualquer grupo ou indivíduo equivale a repetir o mesmo discurso intolerante que estamos questionando. Precisamos sempre tomar o cuidado de não nos tornarmos aquilo que combatemos. A nossa proposta deve ser, tão-somente, desqualificar a mentalidade não-inclusiva, hipócrita e violenta, inerente a estes segmentos. Se por algum motivo essa mentalidade foi necessária no passado (fato bastante questionável), hoje, no mundo moderno, ela não tem mais nenhuma razão de ser.
A homossexualidade e o Patriarcado
O fundamento desse tipo de discurso não pode ser medido com os valores de nossa mente moderna. Enquanto o homem contemporâneo busca uma relação empírica com a realidade, as religiões tradicionais, via de regra, firmam-se em um sistema de verdades inquestionáveis e compulsórias. Revelada por uma divindade local (2) e por seus profetas, a “verdade” dessas religiões não se vincula aos fatos do cotidiano (o que é preocupante) mas sim tende a classificá-los, de forma geral, como danosos e desviantes dos bons-costumes.
Ironicamente, apesar de todos os nossos avanços científicos, nota-se um crescente movimento em busca de grupos religiosos sectários, normalmente com orientação cristã e protestante, o que não vem a ser uma regra. Neste contexto, uma breve análise da homofobia internalizada nestes grupos faz-se pertinente.
O Cristianismo, enquanto uma das principais religiões da atualidade, possui uma gênese em comum com o Judaísmo e com o Islamismo. Sabemos que estas três religiões têm uma visão bastante negativa da homossexualidade, como podemos notar, a título de exemplo, no versículo que segue, extraído do livro do Levítico, capítulo 20, versículo 13, que serviu recentemente de inspiração ao Bispo Marcelo Crivella em um de seus discursos no Senado Federal (3). “Quando também um homem se deitar com outro homem como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue é sobre eles”. (grifo meu)
Como percebemos, fica patente uma falta, advinda de conduta não esperada de um homem. Entretanto, ao observarmos nas entrelinhas, veremos que esta falta não está no homem em si, mas sim no fato dele assumir um comportamento considerado, por aquela sociedade, próprio da mulher. Nestas culturas misóginas, estruturas foram criadas para transformar o feminino (e tudo aquilo que possa estar relacionado a sua esfera) em algo vergonhoso e “abominável”. Não podemos esquecer, por exemplo, que a “queda do paraíso” dá-se por ato “leviano” e impensado da Mãe-Eva, que sucumbiu à tentação do Demônio-Serpente. Desde então foram todas as mulheres amaldiçoadas, restando-lhes, para pagar tal dívida, a eterna submissão ao macho. Aos homens, porém, por mais que gozem de uma posição hierarquicamente superior, sobra uma relação com o divino alicerçada pela dependência e pela vassalagem. E em um mundo de machos castrados, carentes de auto-afirmação mas ao mesmo tempo poderosos e opressores, a criação de bodes-espiatórios é uma saída comum.
Uma ideologia deste tipo cria para os homossexuais dos dois gêneros uma situação bastante incômoda. Por um lado, as lésbicas se tornam mulheres duplamente “abomináveis” pois, além de serem co-responsáveis pelo sofrimento no mundo (a “queda”), ousam manter uma relação de independência sexual dos varões “abençoados por Deus”. Por um outro lado os gays, ao se deitaram com seus pares, traem sua condição de macho dominante e assumem, consciente e deliberadamente, uma identificação com o lado feminino – “impuro, perverso e corrupto” – da natureza humana. Em conseqüência disso ambos são, para sempre, exilados da presença de Deus.
Não consigo imaginar o preconceito contra homossexuais nas religiões do patriarcado tendo outra origem senão na projeção deste preconceito contra a mulher. Como é conhecido pelos estudiosos do assunto, o feminino nas culturas humanas é sempre relacionado à Natureza, à imanência da divindade e aos mistérios do nascimento e da morte, aos quais o homem não tem acesso. Via de regra, estes mistérios despertam temor na mente masculina. E em povos de deserto, devido à sua vida de privações, este temor é amplificado, o que torna a Mãe-Natureza uma inimiga a ser conquistada. O mesmo é projetado à mulher, igualmente vítima de dominação e violência, e o sexo (ligado à fertilidade, à mulher, e à Natureza por extensão) se torna igualmente perigoso. O homossexual, associado à esfera do sexo e do feminino, torna-se um ser humano inferior, corruptor e condenado à marginalidade.
A Alternativa Neo-Pagã
A saída para esse dilema (e aqui chego ao ponto fundamental deste ensaio) é entender que a visão acima descrita é somente uma dentre as infindáveis possibilidades de se enxergar o divino: a possibilidade limitada, hipócrita e ultrapassada, relacionada ao mundo patriarcal judaico-cristão. Em hipótese alguma podemos acreditar que esta é A Verdade, única e inquestionável, sem a qual estaremos apartados dos reinos do Espírito. Ela é, simplesmente, uma visão orientada a uma cultura específica que, além de não ser a nossa, em essência nem existe mais. Enquanto procurarmos a verdade em um só ponto, teremos um mundo monocromático, e não é esse o nosso desejo.
Nossa meta deve ser, portanto, abdicar dessa “verdade” e assumir uma visão cada vez mais relativa e tolerante do outro. Se não agirmos dessa forma, estaremos validando todos os atos de brutalidade já cometidos no passado – e ainda no presente – em nome de verdades absolutas. E apesar de nosso condicionamento cultural, que nos ensina a ver a diversidade com maus olhos, essa mudança de foco não é inviável nem impossível.
Vivemos em uma sociedade desigual, com estruturas familiares, sociais, ideológicas e religiosas orientadas para uma relação entre o homem e uma mulher submissa e restrita ao lar. Essa sociedade não foi projetada para o homossexual, e muito menos para a mulher moderna. E quando uma estrutura não serve mais ela precisa ser mudada. Foram necessários milênios para que a dominação masculina sobre a mulher fosse questionada, e só muito recentemente (muito recentemente mesmo, se tivermos em mente o lapso de tempo dominado pelo patriarcado) as mulheres conseguiram se inserir na vida pública, masculina por excelência. Mesmo assim, e independentemente dos salários menores e outras formas de subserviência ainda vigentes, é inegável que as mulheres estão construindo uma segunda via, pela qual se impõem e garantem seus direitos.
Algo parecido deve buscar o homossexual. Nenhuma instituição religiosa tem credenciais de dona da verdade, e autoridades que usarem desse expediente serão facilmente contestadas. A cada dia, a moralidade desses “representantes de Deus” é abalada por diversos escândalos. Na nossa época, a tarefa primordial de cada um é voltar-se para seu interior, buscando um caminho que traga satisfação, prazer e que, apesar disso, não seja prejudicial a ninguém (o que inclui a si próprio). Se esse caminho já existe, se precisa ser criado, a partir do zero, se é um caminho individual ou se pode ser um caminho para as massas, são questões de importância vital que não podem passar desapercebidas.
Dentro desta perspectiva, as religiões voltadas para a Deusa-Mãe são alternativas viáveis, muito mais acessíveis do que aquelas orientadas para um deus que, mais que amado, precisa ser temido. Nas religiões matrifocais a vida não é tão maniqueísta a ponto de excluir todos os meio-termos. E considerando a atual crise vivida pela humanidade (ecológica, bélica, ética...), voltar-se para essa que é a Mãe de Todos pode ser a única alternativa de garantir a presença humana neste planeta. Precisamos reaprender que a Terra, bem como todos os seus filhos, são sagrados e devem ser respeitados.
A Deusa nos ensina a afirmar a vida, não negá-la; e sempre que afirmarmos nossa vida, e a vida de todos, independente de sua condição, estaremos entrando na grande dança espiral, onde todo ato de amor e prazer é convertido em um rito sagrado.
Todas as religiões são boas quando nos aproximam do Divino e nos tornam pessoas íntegras. Da mesma forma, todas tornam-se invariavelmente ruins se nos afastarem do Humano e negarem a vida. Viver de forma harmoniosa, integrando o Humano e o Divino, o Corpo e o Espírito, em uma única esfera, é a meta de todos os caminhos que afirmam a vida em vez de negá-la. Nesses caminhos há espaço para todos, pois macrocosmo e microcosmo são apenas contrapartes de uma presença sagrada única. Pior que o fato das grandes religiões condenarem a homossexualidade é estarmos tão cegos por elas que não sejamos capazes de perceber alternativas. E, dentro de uma religiosidade viável, o desejo e amor por pessoas do mesmo sexo deve ser entendido apenas como possibilidades humanas a serem celebradas e sacramentadas. Quando garantirmos isso, todo sujeito terá conquistado um direito inalienável, outorgado pelo simples fato de ter nascido na Terra: o direito à Humanidade, e como tal, o direito a uma vida orientada para o prazer, para a alegria e para a plenitude.
Duncan Frewin Bruxaria.org
Notas:
(*) Este texto foi originalmente escrito para o site da Rede de Casais Gays, tendo por objetivo tão-somente apresentar a religiosidade pagã como uma alternativa viável para um público homossexual normalmente orientado para um patriarcalismo não-inclusivo. O leitor acostumado com os artigos deste site notará que se trata de um texto bastante genérico no que se refere ao paganismo em si.
(1) GABRIELA GUERREIRO. Para d. Odilo, papa interpreta visão da Igreja Católica sobre 2º casamento. Folha Online, 21/03/2007, disponível para leitura em http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u90495.shtml
(2) Uso o termo local no sentido de tribal, ou seja, uma divindade não-universal, partidária a determinado grupo e cruel com todos os outros, como é o caso de Jeová: “E, naquele tempo, tomamos todas as suas cidades e destruímos todas as cidades, e homens, e mulheres, e crianças; não deixamos a ninguém. Somente tomamos por presa o gado para nós e o despojo das cidades que tínhamos tomado. Desde Aroer, que está à borda do ribeiro de Arnom, e a cidade que está junto ao ribeiro, até Gileade, nenhuma cidade houve que de nós escapasse; tudo isto o SENHOR, nosso Deus, nos entregou diante de nós.” Deuteronômio 2: 34-36.
(3) Blog da Redação. Entenda por que ser gay não é pecado. Site Acapa, 29/03/2007, disponível para leitura em http://acapa.com.br/site/noticia.asp?codigo=1388
|